Um novo ortobunyavírus do serogrupo Simbu, provisoriamente identificado como “Shamonda-like”, está a ser detetado em bovinos em vários países europeus. Na Suíça, onde foi confirmado pela primeira vez no final de julho, o vírus já tinha sido identificado em 22 cantões até 20 de agosto, estando associado a febre, diarreia, perda de apetite e reduções acentuadas da produção de leite.
O Instituto de Virologia e Imunologia da Suíça (IVI) confirmou a presença do vírus a 31 de julho de 2026, após a análise de amostras recolhidas em bovinos com sinais clínicos. Trata-se da primeira ocorrência naquele país de outro vírus do serogrupo Simbu desde o primeiro surto do vírus de Schmallenberg, registado em 2012.
A sequenciação completa realizada pelo IVI confirmou posteriormente que se trata de um vírus “Shamonda-like”, praticamente idêntico ao identificado na Alemanha. A classificação taxonómica definitiva do agente continua, contudo, em investigação.
Vírus já detetado em vários países europeus
Segundo a atualização mais recente do IVI, de 20 de agosto, o vírus continuava a avançar para sul e leste da Suíça, com novos casos nos cantões do Ticino, Glarus e Grisões. No total, 22 cantões suíços estavam já abrangidos.
A presença do vírus foi igualmente confirmada no Principado do Liechtenstein, nos Países Baixos e na Áustria, neste último caso nas regiões de Vorarlberg e Alta Áustria. França e Alemanha tinham também anteriormente registado a circulação do agente.
Na Alemanha, o Friedrich-Loeffler-Institut (FLI) identificou o vírus em explorações bovinas do sul do país. As análises genómicas mostraram uma elevada proximidade com o vírus Shamonda, conhecido desde a década de 1960.
Febre e forte quebra na produção de leite
Nas explorações afetadas na Suíça, os episódios de doença têm apresentado uma duração aproximada de 14 a 21 dias. Entre os sinais clínicos mais frequentemente observados encontram-se febre superior a 40 °C durante um a dois dias, redução acentuada da produção de leite, perda de apetite e diarreia.
Os vírus do serogrupo Simbu são transmitidos sobretudo por pequenos insetos hematófagos do género Culicoides, os mesmos vetores envolvidos na transmissão de doenças como a língua azul. Os ruminantes, nomeadamente bovinos, ovinos e caprinos, estão entre os animais suscetíveis.
Deteção em fetos abortados aumenta preocupação
Desde 6 de agosto, o IVI identificou também o vírus em amostras de vários fetos bovinos abortados provenientes de diferentes explorações. As autoridades suíças salientam que outras possíveis causas dos abortos continuam a ser investigadas, mas estes resultados sustentam a hipótese de transmissão transplacentária do vírus.
A eventual ocorrência de problemas reprodutivos é uma das principais questões em investigação. Outros vírus do mesmo grupo, como o de Schmallenberg, podem provocar abortos, nados-mortos e malformações congénitas quando a infeção ocorre durante a gestação.
Martin Beer, vice-presidente do Friedrich-Loeffler-Institut, considera determinante perceber se as infeções durante a gestação provocam lesões fetais, acrescentando que as próximas semanas deverão permitir conhecer melhor a velocidade de propagação e as espécies mais afetadas.
Vigilância deverá manter-se durante a época dos vetores
As autoridades veterinárias continuam a acompanhar a disseminação do novo vírus e a desenvolver métodos de diagnóstico específicos. Na Alemanha, o período de maior atividade dos Culicoides decorre habitualmente entre julho e outubro e pode prolongar-se, dependendo das condições meteorológicas, até ao final de novembro, o que poderá favorecer novas transmissões.
De acordo com o conhecimento disponível, os vírus do serogrupo Simbu não são geralmente considerados agentes zoonóticos e não representam um risco relevante de infeção para as pessoas. O FLI ressalva, porém, que, perante um vírus emergente ainda insuficientemente caracterizado, o eventual potencial zoonótico deve continuar a ser acompanhado.
Na Suíça, os detentores de animais são aconselhados a contactar rapidamente o médico veterinário perante quadros de febre, diarreia ou quebras de produtividade, uma vez que estes sinais são inespecíficos e podem estar associados a outras doenças animais que exigem diagnóstico diferencial.
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