Como fazer com que o conhecimento produzido pela investigação chegue efetivamente aos agricultores e se transforme em soluções aplicadas no terreno? Esta foi uma das questões centrais da participação portuguesa no PACE – Public Administration Cooperation Exchange, nos Países Baixos, dedicada ao funcionamento dos Sistemas de Conhecimento e Inovação Agrícola (AKIS) e à partilha de experiências entre os dois países.
Três dias de contacto direto com diferentes componentes do sistema neerlandês de conhecimento e inovação agrícola permitiram observar, discutir e comparar formas de aproximar investigação, aconselhamento, agricultores, empresas, ensino e Administração Pública — e, sobretudo, perceber como transformar conhecimento em soluções com aplicação no terreno.
Nos Países Baixos, o programa do PACE permitiu acompanhar esse percurso em diferentes contextos: desde a definição das políticas e prioridades de investigação até à experimentação nas explorações agrícolas, à demonstração de novas soluções, à organização e divulgação do conhecimento e à criação de condições para que a inovação possa chegar ao mercado e ser adotada pelos agricultores.
Para a Rede Nacional PAC, enquanto entidade coordenadora do AKIS Portugal, o interesse esteve precisamente em perceber o que faz funcionar estas ligações, quais os obstáculos encontrados e que práticas podem trazer ensinamentos para Portugal. Não se tratou de procurar um modelo para replicar, mas de identificar mecanismos que possam ser adaptados às estruturas, às necessidades e às especificidades do sistema português.
Um AKIS faz-se de relações
Uma das principais conclusões do intercâmbio foi precisamente que um AKIS não é apenas uma plataforma digital, um conjunto de projetos ou uma rede formal de instituições. É o conjunto de pessoas, organizações, relações e processos através dos quais o conhecimento e a inovação circulam no setor agrícola.
O seu funcionamento depende, por isso, da criação de relações de confiança entre agricultores, técnicos de aconselhamento, investigadores, empresas, organizações públicas, instituições de ensino e restantes intervenientes. São estas ligações que permitem identificar problemas reais, orientar a investigação, testar soluções, interpretar resultados e fazê-los chegar a quem deles necessita.
A experiência observada nos Países Baixos reforçou também a importância de partir das necessidades dos agricultores e dos técnicos, envolvendo-os desde a identificação dos problemas e não apenas na fase final dos projetos. A inovação tende a ser mais facilmente adotada quando responde a desafios concretos, é experimentada em condições reais e beneficia de estruturas capazes de organizar a cooperação e partilhar os resultados.
Neste processo, os técnicos de aconselhamento agrícola assumem um papel determinante. São eles que, pela proximidade às explorações, podem ajudar a traduzir os resultados da investigação, comparar experiências entre diferentes explorações e devolver ao sistema novas questões e necessidades identificadas no terreno. A sua capacitação, atualização de competências e valorização profissional surgem, assim, como elementos essenciais para reforçar a circulação do conhecimento.
Tornar o conhecimento acessível e útil
Outro dos temas que atravessou o intercâmbio foi a forma como o conhecimento produzido por projetos, universidades, centros de investigação e outras entidades é organizado, preservado e disponibilizado.
A experiência neerlandesa mostrou que ter informação disponível não significa necessariamente que essa informação esteja acessível ou seja útil para quem dela precisa. Uma plataforma digital, por si só, não resolve este desafio. É necessário selecionar e organizar conteúdos, assegurar a sua qualidade, apresentá-los em formatos compreensíveis e garantir que os resultados dos projetos continuam disponíveis e podem ser utilizados depois de estes terminarem.
Esta reflexão assume particular relevância para o desenvolvimento do AKIS Portugal e da sua plataforma, reforçando a importância de continuar a trabalhar para aproximar o conhecimento das necessidades concretas dos agricultores e dos técnicos e facilitar a sua utilização.
Mas a passagem do conhecimento à prática não depende apenas da investigação e do aconselhamento. Ao longo do intercâmbio ficou igualmente evidente o papel das explorações de demonstração, laboratórios de campo, cooperativas, empresas, mercados, financiamento e estruturas de apoio à inovação e ao empreendedorismo.
A adoção de uma nova prática ou tecnologia implica custos e riscos para o agricultor. Para que uma solução experimental se transforme numa opção viável, é necessário criar condições para a testar, demonstrar os seus resultados e, quando aplicável, encontrar parceiros, financiamento, tecnologia, modelos de negócio e mercados capazes de sustentar a sua adoção.
Aprender, mas também partilhar
O PACE permitiu igualmente confirmar que esta aprendizagem se faz nos dois sentidos.
Portugal e os Países Baixos partem de realidades agrícolas, territoriais e climáticas distintas, mas enfrentam desafios que se aproximam em áreas como a água, o solo, as alterações climáticas, a renovação geracional, a viabilidade económica das explorações e a necessidade de acelerar a aplicação do conhecimento no terreno.
A experiência portuguesa em matérias como a seca, o regadio, a gestão e distribuição dos recursos hídricos, o aconselhamento através das organizações de agricultores e os centros de competências revelou-se também relevante para os interlocutores neerlandeses.
A gestão da água foi, aliás, um dos exemplos mais claros desta complementaridade. Enquanto os Países Baixos possuem uma longa experiência na gestão de cheias, infraestruturas hídricas e retenção da água, Portugal acumulou conhecimento na resposta à escassez, à seca e na gestão do regadio. As alterações climáticas estão a aproximar alguns destes desafios, criando novas oportunidades para a troca de conhecimento e para a cooperação entre os dois países.
É precisamente esta lógica que dá sentido ao intercâmbio: não copiar soluções, mas conhecer diferentes experiências, questionar os próprios modelos e perceber o que pode ser adaptado e melhorado em cada realidade.
Do intercâmbio aos próximos passos
A participação no PACE não termina com o regresso a Portugal. As experiências partilhadas e os contactos estabelecidos abriram novas possibilidades de cooperação e deixaram contributos relevantes para continuar a desenvolver o AKIS Portugal, tendo sempre como ponto de partida as necessidades dos agricultores e dos restantes agentes do setor.
O desafio passa agora por transformar as aprendizagens recolhidas em soluções ajustadas à realidade portuguesa, reforçando a ligação entre conhecimento, aconselhamento, inovação e prática agrícola.
Mais do que importar modelos, o PACE permitiu conhecer outras formas de fazer, comparar experiências e identificar abordagens que podem contribuir para um AKIS Portugal mais participado, mais próximo do território e com maior capacidade para transformar conhecimento em ação.








